domingo, 19 de março de 2017

Uma nação aparentemente desgovernada

Desde as manifestações sem razão de 2013 até à operação carne fraca uma coisa fica clara: o Brasil aparenta estar total e absolutamente desgovernado. Com a crise econômica e as medidas tomadas pelo governo golpista empurrando-nos rumo ao precipício acredito no caos provocado. 
As causas principais, agora utilizadas, nasceram com a nova república. São filhas da constituição de 1988. O poder judiciário absoluto, um quarto poder informal e o executivo de coalizão. Um mero juiz de primeira instância pode desorganizar política e economicamente todo o país. Em todos os níveis da administração pública vemos feudos dominados por grupos partidários em benefício próprio.
Os constituintes confundiram autoritarismo com autoridade e nos legaram a libertinagem. Criaram um verdadeiro poder que atende pela alcunha de ministério público. Deram ao judiciário um predomínio desconhecido em qualquer lugar do planeta. Ao mesmo tempo permitiram que o sistema político incentivasse a proliferação de partidos com o único objetivo de assegurarem o futuro dos seus dirigentes.
Para agravar o quadro já caótico tivemos um republicanismo imbecil dominando os governos federais do PT. Em nome da autonomia funcional e da não intervenção nos órgãos da administração pública, permitiram o descontrole das instituições do Estado. 
Com a fragmentação da estrutura do poder, grupos começaram a formar alianças em defesa dos seus interesses. Ao mesmo tempo iniciavam o recrutamento dos idiotizados pela mídia como massa de manobra. O nível de descontrole está tão elevado que um delegado da polícia federal, a partir de casos pontuais, provoca um escândalo mundial afetando todas as empresas brasileiras do setor pecuário, sem nenhuma preocupação com as repercussões da sua iniciativa.
Setores econômicos inteiros estão desaparecendo na fogueira das vaidades dos bacharéis concursados. A indústria naval, a engenharia pesada e grande parte da área metal-mecânica deixou de existir ou perdeu a capacidade de concorrer internacionalmente. Agora parece ser a vez do agronegócio. 
O protagonismo desenfreado de funcionários públicos intocáveis, alimentados pela publicidade fácil dos meios de comunicação, está consolidando a posição do grande vitorioso desta desordem institucional premeditada: o consórcio midiático-financeiro. Até mesmo aliados de primeira hora destes dois bandos, a antiga burguesia do setor produtivo, começa a sucumbir. Nem mesmo a extorsão dos poucos direitos do grande derrotado desta conjuração, o povo em geral, e o assalariado em particular, será capaz de reverter o seu enfraquecimento.

Com o prolongamento da crise o discurso de restauração da lei e da ordem terá cada vez mais adeptos. Incentivados por quem a aprofundou. A solução do consórcio midiático-financeiro terá basicamente dois eixos, a ser seguido pelo governo da sua escolha. A vertente econômica, com a liquidação de direitos trabalhistas e sociais, em prol de um futuro distante e incerto; a entrega do patrimônio público em privatizações “moralizadoras” de baixo custo e a consolidação do seu controle sobre a economia. Por outro lado teremos também a supressão de direitos políticos e individuais. A relativização dos direitos e garantias pessoais fundamentais já está ocorrendo, e é visível em todas as operações judiciais que ocupam as manchetes da imprensa, ao mesmo tempo temos o retorno da criminalização das manifestações e movimentos contrários ao que está sendo colocado em prática no Brasil.