domingo, 22 de maio de 2016

Quem pagará o custo da vitória dos derrotados?

Notei que nos últimos dias, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff, um equilíbrio maior na quantidade de opiniões sobre o processo de impedimento. O volume das contrárias não aumentou, porém as favoráveis sofreram uma queda. Talvez tenha sido o susto com a face dos golpistas. Qualquer um com o intelecto não totalmente lesado ou que não seja um defensor dos próprios privilégios, por mais antipetista que seja, viu o horror que o aguarda. Uma aliança que representa a retaguarda do atraso impondo-se sobre o povo.

Embora durante os mandatos dos presidentes Lula e Dilma nada tenha sido feito contra a elite que detém o controle econômico e político do país, inclusive com muitos setores dela se beneficiando como nunca antes, pequenas mudanças estavam ocorrendo na infraestrutura da sociedade. Estas no longo prazo provocariam mudanças na superestrutura que iniciariam o processo de substituição dos atores que ocupam o estamento colonial ainda vigente e que determina os rumos do Brasil.

Há muito tempo o Brasil necessita de várias reformas, porém elas serão legítimas apenas se aceitas pela população através do voto majoritário. Essas mudanças que impactarão a todos devem ser realizadas de forma democrática, e é preciso antes de tudo que os agentes políticos representativos também tenham legitimidade. Para que isto ocorra é preciso iniciar pela reforma do atual sistema partidário-eleitoral. Originário da Constituição de 1988, que além deste gerou outros males, o executivo de coalizão e um balcão diário de negócios. O governante consegue levar adiante os seus projetos caso satisfaça os interesses imediatos dos demais envolvidos, geralmente do legislativo, que agem mediante o toma lá da cá. A distribuição de feudos aos partidos coligados, de onde extrairão os recursos para a sua perpetuação, é a regra no país. Do governo federal aos municipais. O vício de origem foi imputado a ocupante, como se ela fosse a responsável pelos erros presentes nos últimos trinta anos. Estratégia utilizada por aqueles incapazes de retornarem ao governo através do voto popular.

O governo interino sustenta-se sobre uma conjuração cuja face mais visível são as famílias detentoras dos meios de comunicação ameaçados pelas novas tecnologias. Reúne também grupos que sobrevivem apenas no meio deletério do atual sistema político, setores empresariais e sindicais que necessitam de relações arcaicas na sociedade e camadas sociais minoritárias movidas pelo preconceito e medo de perderem o status atual.

O golpista Michel Temer abraçou sem ressalvas os projetos derrotados nas últimas quatro eleições presidenciais, e com ele o congelamento das relações econômicas e sociais vigentes. Implementa o que foi rejeitado pela população nas últimas duas décadas. Em duas semanas ficou claro que planeja lançar sobre os trabalhadores e aposentados o custo do ajuste para cobrir o rombo causado por dois anos de sabotagens para a derrubada do governo eleito. Junto com ele o fim de direitos legalmente assegurados e o abandono de novos, que equalizariam as disparidades existentes entre as oportunidades apresentadas aos membros das diferentes classes sociais. 

O golpe, que ainda necessita do aval do Senado Federal para a sua consumação, demonstra que visa muito além de Dilma e do PT. O seu principal objetivo é a manutenção das relações hoje existentes entre os vários agentes da sociedade. Para que o sistema de castas vigente, desde a era da escravidão, seja mantido indefinidamente sem alterações. O custo será a permanência da atual estratificação social, com as camadas inferiores permanentemente alijadas das decisões que impactam suas vidas.