quarta-feira, 6 de abril de 2016

Zoologia do golpismo

A fauna não é muito diversificada. Vendo a tendência das notícias, as declarações das excrescências políticas, os artigos dos jornalistas de aluguel e os comentários dos seus textos e falas encontro basicamente três tipos: rapinantes, necrófagos e coprófagos.
É muito fácil identificar cada um deles. Os líderes políticos e empresariais do golpe, principalmente os donos dos meios de comunicação, são em geral rapinantes. Estão sobrevoando suas vítimas prontos para atacarem. Defendem o chamado Estado mínimo, também conhecido como lei das selvas ou cada um por si. Querem se alimentar da carne dos mais fracos, isto é, seus poucos direitos sociais e garantias trabalhistas.
Logo abaixo bestas que devoram os que caem. Possuem bocas infectas que provocam graves danos as vítimas quando atacadas, mesmo que consigam escapar. Em geral são encontrados nos antiprofissionais da imprensa e nos autointitulados movimentos anticorrupção. Outro tipo de necrófago age às vezes em conjunto com estes, são aqueles que preferem o pesadelo do Bolsonaro assumindo como Pinochet, são os olavetes, as crias do Olavo de Carvalho.
O último e mais comum exemplar da fauna golpista são os coprófagos, aqueles que se alimentam dos excrementos dos outros dois grupos. São numerosos e infestam todos os ambientes, regurgitam o excesso do que ingeriram nos campos de comentários.
Não adianta tentar encontrar dentre eles alguma águia, leão ou tigre. Nada disto, são todos seres repugnantes: abutres, hienas, besouros. Provocam asco e não temor. 
Escrevo este texto após, apenas hoje, ver Janaína Paschoal, a possuída do golpe, em ação. Encontrar os trezentos citados pelo Lula no twitter do tal mbl sendo tratados como heróis. Ler os comentários em apoio ao Eduardo Cunha por dizer que descumprirá a liminar do ministro Marco Aurélio e a defesa de Michel Temer na presidência protagonizada pelos movimentos "anticorrupção".  
Eles agem em conjunto. Os chefes e os seus empregados por prestígio, dinheiro ou poder. Quem acredita que os donos da Globo são movidos por interesse público? Que Michel Temer e Eduardo Cunha trabalham pelo bem do Brasil? Que Gilmar Mendes encarna o espírito da lei? Que Kim Kataguri, Marcelo Reis e Rogério Chequer são idealistas? Que Merval Pereira e Reinaldo Azevedo falam a verdade? Eu não acredito!
Tenho profundas discordâncias com o petismo. Principalmente nas questões morais e culturais. Sejam elas como deve se estruturar uma família ou quando começa a vida humana, porém tucanos e liberais nestes aspectos seguem a mesma ideologia do PT. Muitos que se dizem conservadores também lavam as mãos a este respeito. Para mim elas são fundamentais, muito mais que a propriedade privada ou a livre iniciativa.
Em relação aos golpistas que pensam como eu nas questões fundamentais minhas divergências são outras. Dizem respeito aos direitos sociais e ao papel do Brasil no mundo. Não quero um país com a prevalência do mais forte economicamente ou subalterno nas relações internacionais.
A corrupção é uma coisa séria, mas nem de longe a mais importante para os brasileiros. Toda a energia gasta na insana busca pelo impedimento de Dilma Rousseff, com as graves consequências econômicas que estão afetando a maioria, talvez resolvesse em grande parte a violência urbana. Dois ou três milhões marchando pelas ruas e em constante mobilização forçariam o governo federal e os estaduais a buscarem juntos programas para diminuírem os 70.000 homicídios anuais. Quase todos cometidos nos bairros mais pobres. O mesmo para o atendimento na rede pública de saúde ou de educação. Em relação ao orçamento federal as propinas mal chegam a troco, existem gastos inúteis que consomem muitos mais recursos e não serão extintos. Punam-se os realmente culpados pelos roubos, mas dentro das leis e da ordem democrática.
Enquanto assuntos mais sérios são abandonados, milhões preocupam-se apenas com a ideia fixa da corrupção. Das classes mais altas devido aos preconceitos inerentes à origem, a própria e dos que para eles são inimigos e devem ser exterminados. Em relação aos pobres e aos que ascenderam à classe média durante o governo Lula é mais complicado, afinal engrossam a marcha dos seus adversários naturais e sequer pensam sobre as medidas já definidas para um futuro e incerto governo de Michel Temer, todas contra eles mesmos. Pior ainda, estão apoiando os que já se beneficiavam dos mesmos esquemas corruptos antes do PT chegar ao poder, permaneceram dentro deles durante e após a posse terão todos os instrumentos para afastarem de si as punições. Querem entregar as galinhas para as raposas cuidarem.