terça-feira, 12 de abril de 2016

Capitães de abril

Por quase cinquenta anos a nação foi aviltada e a miséria expulsava os seus filhos, forçados a emigrarem em busca de melhores condições de vida. O salazarismo era um governo da e para a elite, o povo um detalhe incômodo. Portugal era o terceiro mundo na Europa. Um movimento liderado por oficiais do exército livrou o país dessa ditadura que o impedia de ingressar no século XX. O maior nome do levante foi o capitão de cavalaria Fernando José Salgueiro Maia. Acima de tudo um idealista. Nunca ocupou e muito menos exigiu um cargo político. Após a vitória continuou se dedicando a carreira militar e morreu aos 47 anos, como tenente-coronel. Foi o rosto visível da Revolução dos Cravos. Os jovens militares derrubaram uma tirania e junto o anacrônico e homicida império colonial lusitano no dia 25 de abril de 1974. Foram os capitães de abril que resgataram a democracia e a cidadania portuguesa. O grande beneficiado foi o povo.

Quarenta e dois anos depois, em outro abril, também num país lusófono, vemos uma mobilização que tenta se passar por democrática. Embora tenha ampla penetração nas classes favorecidas não representa a democracia. Os que desejam um país voltado para a elite manobram a massa cheirosa que se diz politizada e esclarecida, porém não consegue ir além dos próprios preconceitos. No comando desse movimento temos o que de pior foi produzido em termos humanos no Brasil. Uma casta privilegiada que sempre utilizou patrimonialmente o Estado. Sejam empresários, como os donos da Globo, filha predileta da ditadura militar brasileira, que cresceu e ocupou os espaços que domina à sombra do totalitarismo, ou políticos, como o deputado Eduardo Cunha, acusado de usar o cargo público para o enriquecimento pessoal. Neste abril, caso vitoriosa, esta mobilização destruirá a democracia e debilitará a cidadania. O grande beneficiado o nefasto Michel Temer, que ocupará a presidência valendo-se de um golpe de traição. Não o povo em sua grande maioria.

O vice-presidente Michel Temer não possui nenhuma semelhança com o capitão Salgueiro Maia, ao contrário deste deseja cargos e honrarias, mesmo rasgando as leis e vilipendiando a manifestação expressa dos eleitores. Não guarda nenhuma semelhança com os heróis do abril português. O seu movimento é o oposto do que fizeram aqueles jovens militares. Pretende um governo voltado para a elite e para o seu grupo de apoio, formado pelos maus patrões que desejam o fim das leis trabalhistas, os mais venais políticos e os donos dos meios de comunicações que pretendem nos retroceder ao século XX, limitando e dificultando o acesso à internet. Está no mesmo nível de duas figuras da nossa história. 

Michel Temer se iguala a dois personagens da história brasileira que também tomaram as mais importantes decisões das suas vidas durante o mês de abril. São eles:

Domingos Fernandes Calabar que se aliou aos invasores holandeses em 1632, precisamente no dia 20 de abril. Durante dois anos foi um dos maiores responsáveis pelo avanço das tropas inimigas. Sobre quem o mercenário inglês Cuthbert Pudsey, seu companheiro de campanha, escreveu "Nunca encontramos um homem tão adaptado a nossos propósitos, para dar aos soldados proveito, pois ele tomava um pequeno navio e aterrava-nos em território inimigo à noite, onde pilhávamos os habitantes e quanto mais dano ele podia ocasionar aos seus patrícios, maior era sua alegria."

Joaquim Silvério dos Reis foi o outro. No dia 11 de abril de 1789 escreveu uma carta delatando os inconfidentes. Foi o grande responsável pela prisão e morte de Tiradentes. 
Ambos os personagens respondem por algumas das mais vergonhosas páginas da nossa história. Foram traidores e a eles se iguala Michel Temer. Um homem que sem possuir direitos ao cargo pretende se apossar da presidência da república numa ação entre amigos, destituindo a presidente Dilma Rousseff, legítima ocupante do cargo, para o qual foi eleita pela maioria dos que votaram em outubro de 2014. Não temos capitães de abril, mas sim usurpadores traidores e golpistas. 17 de abril corre o risco de se transformar no dia infâmia.