domingo, 27 de março de 2016

República das bananas: o golpe

Vendo a classe média tradicional e a alta nas ruas exigindo a queda da presidente não consigo deixar de pensar nas elites das repúblicas das bananas. O fato de não se verem representados no governo é o suficiente para despertarem a ira golpista. Mesmo que o atual governo em nada os tenha prejudicados ou a presidente cometido os crimes que os alvoroçados lhe imputam. São pessoas que ainda sonham com o american way of life. Mesmo que para isto reduzam o Brasil a um gigantesco Porto Rico. Aplaudiriam fervorosamente um desembarque dos marines. O simples fato de vestirem as camisas da CBF como uniforme oficial para o golpe deixa claro como a corrupção é mera cortina de fumaça para quem protesta. A confederação brasileira de futebol só é derrotada em malfeitos e malversações pelo Congresso Nacional, onde corre o processo para a derrubada da eleita pela maioria dos brasileiros, sob a liderança deles: Michel Temer, Eduardo Cunha, Aécio Neves, Ronaldo Caiado, José Serra, etc. O que só pelos personagens envolvidos dispensaria comentários. Não votei na Dilma, mas sou obrigado a respeitar os votos dados a ela.
O termo midiotizado é insuficiente para descrever os que demandam o golpe. A questão é mais profunda, é atávica. Onde as pessoas que protestam levam os serviçais para continuarem a prestar os seus serviços durante uma manifestação que seria afirmação da cidadania? Apenas nos lugares onde a existência de mucamas é indispensável para que as sinhás e os sinhôs possam desfrutarem do dolce far niente permanente. O american way of life sem o faça você mesmo! A podre elite latino-americana de antanho não deixou de existir, apenas não tinha a cara de pau de se exibir. Sem o aumento do custo da mão de obra doméstica talvez muitos preferissem o conforto das poltronas a marcharem pelo asfalto. Os meios de comunicação, como a Rede Globo ou a revista Veja, apenas alimentam os recalques preexistentes nesses segmentos da população. 
A destruição premeditada de setores produtivos como engenharia pesada, construção naval e óleo e gás, este o mais dinâmico da economia nos últimos anos, foi para causar a profunda crise sem razões econômicas para tal. O aumento do desemprego, a queda dos salários reais e o sentimento de empobrecimento foram planejados para que o descontentamento popular levasse os pobres ao desespero, e assim se transformarem em linha auxiliar do golpe. Embora aqui surjam midiotizados emulando patrões não os vemos em locais de destaque, os poucos estão relegados aos aposentos dos empregados.
O Brasil está no limiar de mais uma vez se tornar o centro das atenções devido ao golpe midiático-judicial. Reafirmando o paradigma: este não é um país sério. Não existe outro lugar no mundo subordinado a uma rede de entretenimento. Os telejornais das Organizações Globo conseguem a proeza de serem mais ficcionais que as suas péssimas novelas. O roteiro golpista da família Marinho, também seguido pelos seus concorrentes, é feito para que sentimentos como a indignação e o desespero dos pobres proporcionem ao golpe a legitimidade popular que não possui. Legalidade nem é preciso falar, pois não a tem e jamais a terá.
A consumação do golpe de Estado em andamento reproduzirá antigas bananas. O retorno aos velhos tempos para as elites, mesmo com o país ridicularizado em todo o mundo, será uma delas. A outra receberá os pobres: fragilização das relações trabalhistas, extinção de programas sociais, incentivo à medicina privada em detrimento do SUS e outros ajustes para quitar a conta financeira do golpe de Estado serão integralmente cobrados dos assalariados. 
Esquecia-me da cana dura. Os novos poderes adquiridos pela polícia, ministério público e judiciário no âmbito da operação Lava a Jato, com a leniência das instâncias superiores e o acovardamento do STF farão com que o porrete bata ainda mais doido nas periferias.