sexta-feira, 4 de março de 2016

O vazamento de Delcídio e os titereiros




Existem provas além das palavras? Tudo pode ser comprovado numa ação penal ou foi feito sob encomenda para um julgamento político? É vingança do ainda senador petista Delcídio Amaral? É tudo mentira? Para mim nada disto importa. O que me interessa é o momento e o instrumento.

A delação, ainda não confirmada a sua veracidade pelo suposto autor, veio a público no mesmo dia que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, tornou-se réu num processo criminal por corrupção e era o sujeito em todas as manchetes. Durante uma sequência de denúncias envolvendo a família Marinho, proprietária das Organizações Globo, em práticas semelhantes as dos acusados na Lava a Jato. Poucos dias após a saída do Ministério da Justiça do namorado da jornalista Débora Bergamasco, da Revista Isto É. Também faltam apenas nove dias para as novas manifestações pelo impedimento da presidente. 

Nunca o deputado Eduardo Cunha esteve tão enfraquecido. O senhor do processo contra a presidente perdeu grande parte do seu poder pessoal. Muitos deputados do baixo clero deixarão de apoiá-lo por temerem o dano à própria imagem, causado pela associação com um acusado em processo penal de grande repercussão. Com este fato novo, embora esperado, a tendência seria o esfriamento do andamento do pedido de cassação contra Dilma Rousseff no Congresso Nacional.

Embora não tenha tido nenhuma cobertura na imprensa industrial, relatos divulgados pelos chamados blogs sujos estão lentamente se espalhando pela rede. Neles práticas comuns nos últimos escândalos de corrupção parecem fazer parte do dia a dia da poderosa família Marinho, dona da Globo. Empresas de fachada, laranjas e operadores em paraísos fiscais para a aquisição de bens de alto valor, como helicópteros e mansões.

O movimento pelo impeachment da presidente devido ao desgaste dificilmente levaria mais manifestantes às ruas, no próximo dia treze, que no último ocorrido durante o mês de dezembro passado. Após mais de um ano os grupos que comandam os protestos arrebanhariam apenas os mais empedernidos antipetistas.

A proximidade pessoal entre a autora da matéria e o ex-ministro Cardozo demonstra que existe não só uma estratégia organizada para evitar que a temperatura da crise política arrefeça, mas que os seus autores acreditam agora mais do que nunca no próprio sucesso. A certeza é tão grande que decidiram até fazer graça. A jornalista, com a sua reportagem, enlameia quem alguns dizem ser o seu amado, na semana que o seu republicanismo foi elogiado pela oposição e pela imprensa. 

As acusações que constam na suposta delação do senador Delcídio Amaral contra José Eduardo Cardozo, Lula e a Presidente Dilma, possibilitará à oposição exigir celeridade no andamento do processo de impedimento; o novo Ministro da Justiça nada poderá fazer para impedir os crimes de vazamento seletivos de inquéritos e processos sob sigilo para não ser acusado de condutas delituosas; abafa qualquer outro fato que possa ofuscar um pouco os desdobramentos da Lava a Jato; permite a abertura de novos inquéritos contra o ex-presidente e deverá proporcionar o aumento de participantes nas passeatas, devido à possibilidade maior de impeachment.

Este último vazamento deixa claro que uma associação que pretende decidir o nosso futuro está ativa e controla áreas do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal. Manipulam, com o auxílio da mídia, os seus títeres com as informações que lhes interessam ver divulgadas. Estes por sua vez entram num estado de excitação que tolhe a capacidade de analisar a situação com as suas implicações. Nem tudo que o PT fez foi ruim para o país, mas mesmo as coisas positivas irão ser descartadas na purgação que se seguirá ao golpe. Enfraquecerá qualquer projeto para o Brasil que esteja em desacordo com as imposições dos órgãos transnacionais, como o FMI e o Banco Mundial, e dos grandes grupos financeiros que controlam as economias dos EUA e da Europa.