domingo, 20 de setembro de 2015

A Crise



Analisar a economia brasileira em separado não mostra a realidade. Culpar a dependência das exportações de matérias primas para a China também não. A questão é global. A redução do dinamismo da economia chinesa e os seus reflexos internacionais não podem ser vistos como causa do problema. A crise no mercado financeiro chinês é mais visível, pois o país é o grande centro exportador de manufaturas. Do crescimento anual de vendas acima de 10% para números negativos, no intervalo de apenas um ano, o impacto seria realmente muito forte.

A situação brasileira é grave devido à situação externa e a absurda obediência das autoridades econômicas às fórmulas de duas décadas atrás, quando a realidade era outra. Mecanismo como a elevação da taxa básica de juros quando não existe pressão de demanda serve apenas para agradar aos especuladores e os manter neutros devido à bolsa rentista.

As exportações chinesas caíram cerca de 5% de 2014 para 2015. No mesmo período a Coréia do Sul teve queda de 14%. As exportações da Índia estão cerca de 10% menores. O Japão que até julho apresentava o crescimento de 7% anualizado, retrocedeu para 3% em agosto. Embora o número ainda seja positivo foi uma queda expressiva num curto período de tempo.

A maior economia do mundo, os EUA, no mês de agosto apresentaram queda nas importações e nas exportações. A Alemanha, dos grandes exportadores, foi a única que até o mês de agosto manteve a taxa de crescimento no seu comércio internacional.  As outras importantes economias da UE, França e Reino Unido, viram suas vendas retrocederem.

Os países exportadores de commodities como o Brasil, a Rússia e a Austrália estão vendo os valores das suas vendas despencarem. No caso dos dois primeiros a desvalorização cambial acentuada foi benéfica, reduzindo os danos internos.

Uma das grandes empresas mundiais de máquinas pesadas, a Caterpillar, há quase três anos vê suas vendas caírem mês a mês. São equipamentos básicos para investimentos em infraestrutura.

O problema é mais profundo que uma simples acomodação chinesa, ela também está sofrendo as mudanças negativas na economia mundial. Um dois principais fatores da recuperação norte-americana após a crise dos subprimes, o boom do xisto, está em reversão devido ao baixo preço do petróleo. 

Os EUA após terem batido o recorde de produção em abril, com 9,6 milhões de barris dia, iniciou setembro em 9,1 milhões e a previsão para o período de um ano é que caia ainda mais, para 8,6 milhões. Para evitar isto somente com o aumento do preço internacional e o consequente encarecimento da energia nas economias já combalidas. A queda acentuada do preço do petróleo beneficiou os importadores, permitindo um suspiro em países como a Espanha. 

O crescimento chinês era a âncora que impedia a ação mais acentuada da crise econômica estrutural global em andamento. Com o arrefecimento da sua economia os problemas começaram a aparecer. O impacto nos Estados Unidos foram mitigados pelo quantitative easing, um alimentador da especulação devido ao baixo preço da moeda. A Europa seguiu pelo mesmo caminho. Mesmo com todos os trilhões em incentivos a economia real não foi beneficiada na mesma proporção. Quando forem forçados a aumentarem os juros, o que não deve demorar, devido ao risco de contágio da deflação dos preços internacionais nos mercados nacionais, veremos as bolhas explodirem em sequência. Não existem mais mecanismos financeiros a disposição dos governos ou banco centrais para fazerem frente a quebra dos mercados.

Infelizmente o Brasil parece que não irá mudar de rumo. Seja com a dupla Levy-Tombini ou com qualquer outra se não houver mudança de paradigma. O inverno está chegando e ao invés de estarmos nos preparando para ele continuamos a desprezar as provisões para o enfrentar.