sábado, 26 de setembro de 2015

A China chega à Síria



O mundo tem acompanhado os massacres cometidos pelos terroristas do estado islâmico na Síria e no Iraque. Os países ocidentais fecharam os olhos e a matança continua.

Os americanos em campo limitaram-se a raids aéreos publicitários e ao treinamento de jihadistas "moderados", enquanto esperavam que o terror derrubasse o regime de Bashar Al Assad. Tudo em linha com o seu interesse na guerra civil, a queda de um governo não subordinado às suas ordens na região. De todos os combatentes "não-terroristas" que financiaram, treinaram e armaram tinham no último relatório divulgado o controle sobre 5, isto mesmo CINCO indivíduos, embora tenham gasto US$ 500 milhões no programa. Toda esta quantia, na prática, foi uma injeção direta de recursos no ISIS, fortalecendo-o! Repetindo o Afeganistão da luta contra o comunismo, da década de 1980, onde deixou como herança o Talebã e a Al Qaeda, os guerreiros da liberdade do presidente Reagan.

A Europa vê-se as voltas com a multidão de imigrantes e boa parte dos seus habitantes teme a infiltração de terroristas entre eles. Muitos dos que agora se dizem sírios são na verdade refugiados da invasão americana no Iraque e que estavam em campos no país, desalojados outra vez por mais um conflito. Isto sem falar dos que fogem da Líbia e de outras regiões do norte da África, onde a OTAN também interveio levando ainda mais o caos e a destruição. Até o momento bateram nas portas da UE menos de 10% dos deslocados por estas guerras.

Após a devastação da Líbia pela OTAN, com os seus ataques aéreos contra o exército do país, que determinaram a sua transformação numa terra de ninguém a mesma receita foi vetada para a Síria. A principal resistência a uma nova operação nos mesmos padrões foi do russos. Como para os americanos o que importa é a desaparição do partido Baath, no poder, como já havia feito no Iraque, nenhuma ação concreta para impedir o avanço do terror foi tomada nos últimos anos.

Os membros das minorias religiosas, cristãos, yazidis, xiitas e outros grupos, que viviam nas regiões dominadas agora pelos takfires que não conseguiram fugir a tempo foram mortos ou escravizados. Isto mesmo, em pleno século XXI, o mundo voltou a conviver com o comércio de seres humanos. Tudo sob o olhar no mínimo complacente dos americanos e europeus.

Como a derrubada do governo sírio atinge diretamente os interesses estratégicos da Rússia, afinal Tartus é a sua única base militar no exterior, e o seu porto no mar Mediterrâneo, a partir de agosto iniciou uma operação direta, não somente o envio de armamentos e outros recursos como vinha fazendo.

A aparente omissão interessada do ocidente, isto publicamente, pois os terroristas sempre contaram com apoio logístico, financeiro e o fornecimento de armas de países aliados dos EUA, como Turquia e Arábia Saudita, permitiu que Putin ocupasse o espaço e iniciasse a sua guerra ao terror.

Quando foi divulgado que os russos haviam chegado já era fato consumado. Publicamente a oposição americana e dos demais países da OTAN foi limitada, afinal como recriminar quem está disposto a lutar contra a barbárie? O desembarque de tropas e equipamentos continua e apenas militarmente poderiam ser parados, mas assumiriam que o estado islâmico luta para eles.

Com a presença ostensiva dos russos, os iranianos também admitiram que participam da luta. Juntam-se então ao exército sírio e ao Hezbollah, estes agora livres dos ataques aéreos israelenses contra os seus comboios e posições. Que beneficiavam o avanço jihadista. Para mim um erro estratégico brutal do Estado de Israel, bem ou mal Al Assad entende dos jogos diplomáticos.

Durante a Assembléia Geral da ONU, que está ocorrendo, os americanos esperavam melhorar a sua posição diplomática com conversas paralelas, principalmente com o Irã, devido ao recente acordo nuclear, para garantir a sua participação como líder da ofensiva, mas acima de tudo instituir um novo governo para a Síria, mais receptivo aos seus ditames. Só que parece que a situação se complicou um pouco mais. A China chegou. Se com os russos já seriam forçados a dividirem o comando, agora, se quiserem, devem entrar como apenas mais um, sem nenhum protagonismo. Perda de poder e influência na região.

O porta-aviões Liaoning atracou na base naval russa em Tartus, aviões de combate e tropas estão a caminho, na primeira ação militar chinesa fora da sua área direta de influência desde que se tornou uma país, lá na antiguidade clássica, quando a Síria era uma das províncias do Império Romano.

O triunvirato Rússia, China e Irã na prática assumiu o controle das ações contra os terroristas do estado islâmico e também a defesa do regime. Israel, Turquia e Arábia Saudita, países vizinhos da Síria, não possuem mais condições de operação militares que visem o governo de Damasco ou a integridade territorial síria. Como pretendiam os turcos na sua região de fronteira. Aliás as forças armadas turcas atacam impiedosamente os curdos, de quem são inimigos históricos, pois temem o surgimento do Curdistão. O único grupo local que fez frente ao avanço dos terroristas, com suas milícias, como a YPG, é atacado pelas forças armadas turcas, o que no terreno beneficia o EI.

Forças russas, chinesas e iranianas agindo na fronteira da OTAN, colocando botas no terreno e numa posição de força marca a mais importante semana desde o fim da URSS. Resta aos EUA minimizarem as perdas, mas devido a deteriorada situação na área e principalmente pelos seus efeitos que afetam diretamente aos europeus, um alinhamento incondicional da UE está fora de questão. Como justificar para a opinião pública da Europa, temerosa da "invasão bárbara", que desde o início apoiaram os bandidos, por isso agora precisam salvá-los do perigo vermelho...