terça-feira, 4 de março de 2014

Ucrânia: o preço da divisão interna

Artigo escrito por Jack F. Matlock, no seu blog. Antigo embaixador americano na Checoslováquia (1981-1983) e na URSS (1987-1991), em ambos os postos nomeado pelo presidente Ronald Reagan.



"Nós encontramos o inimigo e ele somos nós."

Com todas as notícias que chegam da Ucrânia, de Moscou, de Washington e das capitais europeias com acusações mútuas, especulações irrefletidas e não menos importante, a linguagem histérica de alguns observadores, na fronteira do apocalíptico, é difícil se concentrar nas implicações a longo prazo do que está ocorrendo. No entanto, não acredito que ninguém possa compreender os resultados prováveis do que está acontecendo, a menos que tenha em mente os aspectos históricos, geográficos, políticos e psicológicos deste dramático evento. O ponto de vista da maioria dos meios de comunicação, seja russo ou ocidental, parece que um lado ou o outro vai "ganhar" ou "perder" a Ucrânia.

Acredito que isto está fundamentalmente errado. Se fosse ucraniano gostaria de ecoar as palavras imortais de Pogo, do falecido Walt Kelly: "Nós encontramos o inimigo e ele somos nós." O fato é que a Ucrânia é um Estado, mas não uma nação. Nos 22 anos, desde a sua independência, ainda não encontrou um líder capaz de unir os seus cidadãos num conceito partilhado de identidade ucraniana.  Sim, a Rússia tem interferido, mas a desunião ucraniana não é causada pela ingerência russa. Não foi esta interferência que criou a desunião, mas sim a forma como o país foi montado a partir de peças incompatíveis entre si. A esta falha no início da Ucrânia independente devemos adicionar os efeitos maléficos da herança do comunismo soviético, também partilhada pela Rússia.


Um segundo erro que as pessoas cometem é supor que quando um governo adota uma política específica ela está de acordo com os verdadeiros interesses do país. Na verdade, muitas vezes, as políticas são decididas no calor da emoção, por líderes que se sentem pessoalmente desafiados pelos adversários. Estas são mais propensas a serem contraproducentes para os reais interesses de uma nação. Os líderes políticos não são computadores pesando os custos e os benefícios, ou os riscos e recompensas de forma objetiva. São seres humanos com todas as suas fraquezas, incluindo a vaidade, o orgulho e a necessidade de manter a aparência qualquer que seja a realidade.

Noções básicas:

1) O território da Ucrânia não foi estabelecido pelos ucranianos, mas por pessoas de fora, e tomou a atual forma após o final da II Guerra Mundial. É absurdo pensar nele como originário ou tradicional. Isto se aplica a princípio às duas mais recentes adições territoriais. Áreas do leste da Polônia e da Checoslováquia entre guerras anexadas por Stalin e a Crimeia de língua russa (Em grande parte.), transferida por Nikita Khrushchov, quando controlava o Partido Comunista da União Soviética. Como todas as partes constituintes da URSS eram governadas a partir de Moscou parecia na época uma transferência de papel, sem significado prático. (Mesmo assim a cidade de Sebastopol, sede da frota do Mar Negro, estava subordinada diretamente a Moscou e não a Kiev.) Até então a Crimeia era considerada parte integrante da Rússia desde a conquista por Catarina, a Grande, no Século XVIII.

2) Um aglomerado de pessoas com experiências históricas muito diferentes e várias línguas, embora relacionadas, está na base da divisão atual. Esta divisão no entanto não é clara, como por exemplo, entre os Checos e Eslovacos, que fizeram uma separação pacífica. Se alguém considera a Galícia e as províncias vizinhas, a oeste, por um lado, e Donbass e a Crimeia, no leste e sul, por outro, verá que as áreas entre elas são misturadas, com as tradições alterando-se gradualmente a partir de um lado para o outro. Não existe uma linha divisória clara e Kiev pode ser reivindicada por ambos os lados.

3) Devido a sua história, localização geográfica e os laços naturais e econômicos construidos não há como a Ucrânia ser um país próspero, saudável ou unido a menos que tenha uma relação amigável com a Rússia, ou ao menos não antagônica.

4) A Rússia, como qualquer outro país, é extremamente sensível em relação às atividades militares estrangeiras adjacentes a sua fronteira. Ela sinalizou repetidas vezes que fará de tudo para impedir a adesão da Ucrânia à OTAN. (Na verdade a maioria dos ucranianos não quer isto.) No entanto a entrada da Ucrânia na Otan era um objetivo declarado da administração Bush-Cheney e não foi categoricamente abandonado pela administração Obama.

5) A sensata liderança russa (algo que não mais se pode assumir sobre a sensatez da liderança dos EUA e da Europa) poderia tolerar a modernização dos sistemas econômico e político da Ucrânia em cooperação com a União Européia, desde que: isto não seja visto numa base antirrussa; que os cidadãos de língua russa tenham garantida a igualdade social, cultural e linguística com os de língua ucraniana e, o mais importante, que uma integração econômica gradual  com a União Europeia não transforme a Ucrânia num membro da OTAN.

6) Até agora os nacionalistas ucranianos do oeste não estão dispostos a admitir nenhuma dessas condições, e os Estados Unidos seja incentivando ou tolerando atitudes e políticas fizeram-se anátema para Moscou. Isto é tremendamente injusto, mas é um fato.

Então onde isto nos deixa? Alguns pensamentos aleatórios:

A) Foi um erro de todas as partes, seja de dentro da Ucrânia ou de fora, tratar esta crise como uma disputa pelo controle da Ucrânia.

B) Obama foi mal aconselhado no "aviso" a Putin. Qualquer que seja a pequena esperança de evitar uma intervenção militar ostensiva da Rússia desapareceu quando Obama atirou a luva e desafiou. Não foi apenas um erro de julgamento político, foi um fracasso para compreender a psicologia Humana, a não ser, é claro, que ele queria realmente uma intervenção russa, o que é difícil para eu acreditar.

C) Neste momento, pelo menos para mim, não está clara qual é a intenção final russa. Não acredito que seja do interesse da Rússia dividir a Ucrânia, embora possam separar a Crimeia, caso o façam provavelmente terão o apoio da maioria dos seus habitantes. Eles podem simplesmente desejar fortalecer a posição dos seus aliados no leste ucraniano nas negociações sobre a nova estrutura de poder. No mínimo eles estão sinalizando que não serão dissuadidos pelos Estados Unidos ao fazerem o que consideram necessário para protegerem os seus interesses na região.

D) A Ucrânia já está de fato fragmentada, com grupos diferentes nos comandos das várias províncias. Se houver esperança para reuni-los novamente deve existir cooperação de todas as partes, formando uma coalizão minimamente aceitável para a Rússia e os cidadãos ucranianos de língua russa, do sul e do leste. Uma federação com governadores eleitos localmente e não nomeados pelo presidente ou primeiro-ministro (O vencedor leva tudo.) será essencial. Autonomia real para a Crimeia também será necessária.

E) Muitas questões importantes permanecem. Uma diz respeito ao conceito de "Integridade Territorial". Sim, isso é importante, mas não é o único princípio a ser considerado. Os russos argumentam, com alguma substância, que os EUA interessam-se pela integridade territorial apenas quando os seus interesses são atendidos. O governo americano possui um histórico de ignorá-la quando é conveniente. Ele e os seus aliados da OTAN violaram a integridade territorial da Sérvia, criando e, em seguida, reconhecendo a independência do Kosovo. Além disso deu apoio a separação do Sudão do Sul do Sudão, da Eritreia da Etiópia e do Timor Leste da Indonésia.

Na medida da preocupação sobre a violação da soberania, a Rússia recorda que os EUA invadiram o Panamá para prenderem Noriega; invadiram Granada para evitarem que cidadãos americanos fossem feitos reféns (Mesmo que eles não tenham sido tomados como reféns.); invadiram o Iraque com motivos espúrios, Saddam Hussein não possuía armas de destruição em massa; utilizam drones para atingirem pessoas em outros países, etc. Em outras palavras, os EUA pregarem para o presidente russo o respeito pela soberania e pela integridade territorial pode parecer uma reivindicação de direitos especiais não permitido aos outros.

Ukraine: The Price of Internal Division

Biografia de Jack F. Matlock Jr.