terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não se deve escolher a desonra

14 de maio de 1938, jogo de futebol em Berlim, amistoso entre as seleções inglesa e alemã. Ambos os times fazem a saudação romana para a tribuna de honra do estádio onde estavam Göering, Goebbels, Hess e von Ribbentrop: “Vocês puderam escolher entre a desonra e a guerra. Vocês escolheram a desonra e terão a guerra”.


Quando os fatos são contrários à fábula, mude-os. Deturpe-os e os transforme na sustentação da ideia que pretende expor. Isto foi o que fez um dos principais expoentes do chamado conservadorismo brasileiro, o psicanalista e blogueiro Heitor de Paola. Faço este comentário sobre um trecho do artigo, também publicado no site mídia sem mascara.

"... quando da compra da sucata pomposamente chamada Navio Aeródromo Minas Gerais, o único navio com dois comandos na história da humanidade! 


Absurdo, embora mais sério, foi a denúncia, em 1977, do tratado militar com os EUA pelo Presidente Geisel, certamente com prejuízos incomensuráveis para os gringos. A indústria bélica brasileira faliu e hoje importamos sucatas alemãs, fracesas e russas! A usinas nucleares acertadas com a americana Westinhouse foram pro beleléu e os alemães, tão a gosto de Herr General Geisel nos deixaram com uma usina vagalume e outras por construir pelos próximos séculos."

Em 1977 os EUA eram presididos por Jimmy "dhimmy" Carter, o único presidente daquele país que pode ombrear com o Obama. Nem Clinton conseguiu essa proeza. Na época o comandante em chefe determinou que para continuar a receber a "ajuda militar" americana o governo brasileiro deveria:

A) Mudar a política interna sobre direitos humanos conforme determinações;
B) Romper o acordo nuclear assinado em 1975 com Alemanha e suspender todas as atividades de desenvolvimento da tecnologia nuclear.

Foi um momento algo parecido com as imposições atuais de Barack para Bashar. Estes foram os principais motivos do rompimento. Uma clara intervenção nos assuntos internos brasileiros por parte de um governo estrangeiro. Felizmente os direitos humanos, por condições internas, começaram a ressurgir cerca de dois anos depois.

O crescimento da indústria bélica brasileira ocorreu após o rompimento. Até então, por força do acordo militar, firmado em 1952, os armamentos das forças brasileiras seriam basicamente os fornecidos pelos americanos nos modelos, quantidades e qualidade que desejassem, e com destinação específica. 

No início da década de 1980 chegamos a desenvolver um tanque médio com padrão internacional, o Osório. Fora outros itens, como MLRS Astros II. A falência da indústria bélica nacional ocorreu anos após o rompimento do acordo militar e não devido a ele. Com a sua vigência nem este curto período de florescimento teríamos tido.

A "sucata" comprada pelo Brasil em 1956 era um porta-aviões britânico da classe Colossus. Foram construídos dez durante a segunda guerra. Para o HMS Vengeance, comissionado em 1945, se transformar no Minas Gerais foi modernizado na Holanda. O seu irmão mais velho, o HMS Colossus, sofreu reforma semelhante e foi utilizado pela marinha francesa, com o nome de Arromanches, até 1974. O mesmo com o HMS Venerable, utilizado pelos holandeses até 1968 e depois pelos argentinos, como 25 de mayo. Na época, década de 1950, não era uma sucata, o equipamento era compatível com os navios-aeródromos utilizados pelas potências de médio porte. O motivo da compra na Inglaterra:

A request for a carrier from the US was refused on the grounds that: (1) the carrier was too expensive to justify its limited usefulness; (2) aircraft suitable for the requested carrier were no longer available; and (3) sale of a carrier to Brazil would lead to similar requests from other Latin American countries.

O mesmo por volta de 1960 se dava em relação aos outros equipamentos militares necessários à defesa nacional:

Since 1948, when Argentina obtained jets, the Brazilian Air Force has exerted pressure upon the government to procure equal or superior equipment. Jets were not available from the US on grant or reimbursable aid, and Brazilian efforts to purchase jet aircraft from private sources in the US were unfruitful.

O acordo militar Brasil-EUA era muito mais interessante para eles. Não com o intuito principal no lucro, mas para nos manter militarmente dependentes.

Agora a maior de todas as besteiras:

A usina vagalume, Angra I, foi fabricada pela Westinghouse! A sua compra em contrato turn key ocorreu em 1970. A culpa pelo apaga-apaga é americana, nada tendo a ver com o acordo nuclear firmado com os alemães de Herr Geisel.

Tanto na indústria bélica quanto na nuclear os erros foram posteriores ao governo Geisel. Principalmente devido ao desmonte estúpido destes setores  por Sarney e Collor de Mello. Utilizar estas ocorrências como não foram, para ilustrar a atual crise de espionagem, deixa um odor de vira-latas no ar. Oposição ao petismo não significa rastejar diante dos seus supostos desafetos.

P.S.: Mais vergonhosa ainda foi a cartinha "psicografada" de Neville Chamberlain. Gaspari está fazendo escola. Somente quem desconhece a obra do nefasto ex-premier britânico seria capaz de se transformar em Eremildo.

Complexo de vira-latas