quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Furacões e escolhas humanas



O artigo abaixo é de Roger Pielke Jr. Professor de estudos ambientais na Universidade do Colorado. O próprio texto deixa claro que ele não é um cético do aquecimento global antropogênico, mas o que escreveu é sobretudo sensato. O importante nestes casos é evitar as perdas humanas. A região serrana do Rio de Janeiro permanece tão insegura quanto antes da catástrofe que matou o equivalente a 20 supertempestades Sandy. O último parágrafo deveria ser enviado para as autoridades brasileiras.


Valores corrigidos dos danos provocados por furacões e tempestades 1900 - 2012

Sandy foi terrível, mas estamos num período de estiagem de furacões. Ligar a política energética e os desastres faz pouco sentido científico.

O furacão Sandy deixou em seus caminhos algumas estatísticas impressionantes. A sua pressão central foi a menor já registrada para uma tempestade ao norte da Carolina do Norte, quebrando o recorde anterior estabelecido pelo devastador Long Island Express, um furacão de 1938. Ao longo da costa leste Sandy provocou mais de 50 mortes, deixou milhões sem energia e causou cerca de US$ 20 bilhões em prejuízos.

Mas considerar que Sandy é o prenúncio de um “novo normal”, que eventos climáticos sem precedentes causarão destruições inéditas, seria errado. Esta histórica tempestade deve nos lembrar que o planeta Terra é um lugar perigoso. Onde os eventos extremos são comuns e os desastres esperados. No contexto adequado Sandy é menos um exemplo de como as coisas podem ficar ruins e mais um lembrete de que poderiam ser muito piores.

Ao estudar furacões podemos fazer comparações difíceis ao longo do tempo, ajustando as perdas passadas, corrigindo-as pela inflação e o crescimento das comunidades costeiras. Se os danos provocados por Sandy forem mesmo de US$ 20 bilhões será classificada como o 17º evento de furacões ou tempestades tropicais  mais prejudiciais, de um total de 242 a atingirem os EUA desde 1900. Um evento significativo, porém longe dos maiores. O topo da lista é ocupado pelo grande furacão de Miami de 1926. Segundo o ICAT se ele ocorresse hoje seus danos alcançariam US$ 180 bilhões. Katrina está em 4º lugar com US$ 85 bilhões.

Para colocar as coisas em perspectiva ainda mais nítida, considere que de agosto a outubro de 1954 a costa leste viu três diferentes tempestades alcançarem terra firme: Carol, Diane e Hazel. Em 2012 cada uma delas teria causado pelo menos o dobro dos danos de Sandy.

Raramente a mídia menciona que os EUA estão atualmente em uma prolongada estiagem de furacões. O último furacão de categoria 3 ou superior a chegar em terra foi Wilma em 2005. Este período de sete anos é o maior em mais de um século sem eventos desta magnitude.

Danos causados por enchentes decresceram em proporção a economia desde que registros confiáveis foram estabelecidos pelo NWS na década de 1930, e não existem evidências do incremento de cheias fluviais extremas.

Os relatórios do IPCC mostram que as secas nas grandes planícies têm diminuído nas últimas décadas. Mesmo quando ocorrem são menos destrutivas. A seca atual representa menos de 10% dos prejuízos se comparada a de 1988/1989 indicando maior resiliência da agricultura americana.

Porém não existe motivo para acreditarmos que vivemos em um período de boa sorte em relação aos desastres. Um terremoto em São Francisco semelhante ao de 1906 poderia causar mais de US$ 300 bilhões em destruições e a perda de milhares de vidas, de acordo com estudo publicado em 2009, no qual fui co-autor.

Assim como os desastres atuais, mesmo que fisicamente menos poderosos que os anteriores, podem alcançar estes incríveis custos financeiros? Uma razão: existem mais pessoas e riquezas em jogo. Em parte isto se deve ao uso da terra, em parte as políticas governamentais de seguros subsidiados, mas simplesmente porque as pessoas preferem estar na costa ou perto de rios.

Mesmo assim, com relação aos desastres, nós podemos traçar o nosso próprio destino. O número relativamente baixo de mortes causadas por Sandy é um  testemunho da história de sucesso do Serviço Nacional de Meteorologia e os esforços daqueles que enfatizam a preparação e a resposta de emergência nos setores público e privado. Todos na comunidade de gestão de desastres merecem agradecimentos. A mitigação dos impactos dos desastres naturais tem sido uma verdadeira história de sucesso nacional no último século.

Porém o sucesso contínuo não está garantido. A má resposta e as suas trágicas conseqüências associadas ao furacão Katrina nos dizem o que pode acontecer quando baixamos a nossa guarda.

E há indícios que estamos preparando o cenário para fazer piores as futuras catástrofes. Por exemplo, o programa U.S. polar sattelite é fundamental para a previsão do tempo, mas tem sido descrito pelo administrador da agência federal que supervisiona a NOAA como uma vergonha nacional devido aos problemas crônicos de gestão. “A falta de supervisão eficaz do presidente e do congresso ao longo de mais de uma década pode ser atribuída aos republicanos e democratas. O mau uso do programa pode significar uma lacuna na cobertura por satélites e uma possível degradação das previsões.”

Outro perigo: as discussões governamentais dos riscos de desastres serem assumidas pelo lobby do clima e seus aliados, que utilizam cada evento extremo para discutir ações sobre a política energética. Em Nova Iorque esta semana a declaração do governador Andrew Cuomo: “Eu penso que neste momento é inegável, estas situações meteorológicas extremas têm uma maior freqüência e vamos ter que lidar com isto.” O prefeito Michel Bloomberg falou de forma semelhante.

Os seres humanos afetam o sistema climático e é de fato importante tomar medidas em matéria de política energética, mas conectá-la aos desastres faz pouco sentido científico ou político. Não há sinais de que a mudança climática causada pelo homem aumentou o número de vítimas de desastres recentes, como diz o último relatório sobre eventos extremos do IPCC. E mesmo sob as suas hipóteses as mudanças na matriz energética não teriam impactos perceptíveis sobre catástrofes futuras para a maior parte deste século ou mais.

As únicas estratégias eficazes para nos prepararmos para desastres futuros são aquelas que tiveram sucesso no passado: uso estratégico da terra, proteção estrutural, previsões eficazes, avisos e evacuações. Esta é a verdadeira lição de Sandy.